Segunda-feira, Outubro 26, 2009

mudando...

Estava namorando um cara bonito agora. Ele era diferente, passava um tempo enorme se arrumando, quase sempre, ganhava dela. Disputavam o minúsculo espelho do banheiro da sua casa. Logo ela que nunca foi muito fã de espelhos, agora se via lá, todos os dias, antes de sair, tentando encontrar um penteado novo, uma nova combinação de batom e sombra, enquanto ele penteava compulsivamente seu cabelo envolto em gel.

Agora, precisa ler revistas de modas, analisar quais modelos encaixam no seu tipo de corpo, entender se renda combina com seda, assistir ao desfile do estilista tal, enquanto ele combina metricamente a camisa com o jeans e a camiseta por baixo do terno.

Perde um belo tempo pensando em esmaltes, sapatos, enfeites, tentando se manter perfeita para que as pessoas digam: "Que belo casal". Mas sente falta do tempo em que saia de jeans e camisa branca e não precisava disputar o espelho.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Desventuras no Divan - Parte II

- Cansei de explicar meus problemas para psicólogos. Todos eles fazem cara de "te compreendo", mas nunca lhe apontam uma solução. Estou pensando até em fazer psicologia pra ver se consigo me auto-ajudar. Falou enquanto chutava o ar com seu par de tênis super caro.

E como pretende fazer isso? Era a pergunta que passava pela cabeça da recém formada doutora, que olhava para o teto rezando para que esse não fosse mais uns dos seus pacientes Gênios, que entendiam tudo sobre psicologia por que leram Enquanto Nietzsche chorou.

- ...Teve até uma mulher que fez isso, sei lá qual era o nome dela, mas ela fez exatamente isso, começou a estudar para se ajudar, e acho que funcionou...

Acha? Meu Deus ele acha! Quero ver o que fará nos primeiro dia de aula, cheio de teorias e achismos. Eu queria voltar para sala e acompanhar sua epopéia acadêmica. Mas o pior é que ele tem razão, teve mesmo uma mulher que fez isso, qual era mesmo o nome dela?

-... E você, parece pior do que os outros. Se quer olha para mim. Alooohhh! Terra chamando! Cambio??

Pronto, agora teria que pensar rápido, outra vez pega distraída, já estava virando rotina, abriu o bloquinho e rabiscou: Concentre-se!
Ah, é, tenho que responder ao engraçadinho:

- Câmbio! Então você já vai economizar uma grana com teste vocacional.

De onde tirou essa? Economizar! Só a jaqueta do garoto, já daria para pagar um ano do aluguel do seu consultório, ele não precisava economizar, ela sim, precisava. E urgentemente!

- ...Vou assistir umas mostras de profissões, tem um monte de faculdades que perde tempo montando isso. Meu pai tá empolgadão, já fez até um guia, tipo um cronograma mesmo, com as datas, sabe? Coisa de velho.

Não, ela não sabia, não assistia a nenhuma mostra e não tinha um velho preocupado com o seu futuro, ela se quer sabia porque tinha escolhido a psicologia.

- ...E aí, ele ainda acha que eu vou acabar optando por uma dessas carreiras de executivo, que tem carros caros e um monte de mulheres...

- Um monte de mulheres - se viu dizendo. Mas para que ter um monte de mulheres?

Estava demorando para se intrometer nos pensamentos dele. E dessa forma, e daí que ele quer um monte de mulheres, quase todo cara quer. E o pior é que existe mesmo um tanto de mulheres para um único homem,e ele, com toda a grana que já tem, acho que vai precisar fazer muito esforço.

- ... Não que eu não queira conhecer alguém, tipo uma mulher perfeita para casar, formar família. Mas por enquanto, eu tô novo, né? E como eu sou lindo, tenho mais é que aproveitar...

Ela levantou os olhos por cima do óculos, e olhou para o rosto à sua frente: cachos alourados, olhos esverdeados, traços marcantes e um nariz clássico. Ele realmente era bonito. Eu não devia ter olhado- pensou enquanto desenhava uma estrelinha no bloco de papel. Agora, vou ficar pensando nele, e vou classificá-lo, como o arrogante bonitinho. Foco! Você precisa se concentrar, daqui a pouco ele percebe de novo, que você não está prestando atenção nele. Concentre-se! Rabiscou no papel.

- ...Aquela festa foi muito doida. Tinha tanta gata, que eu não sabia pra qual partia, era de tudo quanto tipo, você tem noção?

Não, ela não queria ter noção, queria só que o sol que agora cobria o céu, fosse embora de deixasse a lua surgir, indicando que ela passara por mais um dia. Mas ao invés de ter seus desejos realizados, tinha o arrogante bonitinho dissertando sobre sua orgia particular, enquanto ela movia ligeiramente a cabeça de um lado para o outro, demonstrando que estava inteiramente interessada no assunto. Quando será que ela arrumaria pacientes daqueles normais, que só contam como foi seu dia, e se acham completamente perdidos por causa de um amor não correspondido?

- ... Mais aí deu nisso, acabei condenado. Tive que ficar indo lá naquele troço três vezes por semana, e eu nem sei porque...OI!! Você ainda está ouvindo.

Ela procurou de novo o relógio, queria uma nova saída agora, não estava inspirada para uma resposta. O garoto procurou seus olhos, ele fixou nos seus olhos castanhos e ela sentiu que seu rosto iria corar.

"Chão! Chão...Chão..chão" - O celular dele tocou. E foi atendido prontamente:

- Tô aqui ainda, pai... Não, acho que ainda não acabou... O quê?... Não!

Desligou o aparelho e deu a notícia:

- Meu pai, arrumou um estágio para mim. Nem quero saber quando ou como é. Não vou e pronto. Por que ele fez isso?

Ela pensou em esfregar umas verdades na face dele, fazê-lo acordar que ele não poderia ser sempre um aborrecente cheio de vontade, mas como não era de seu feitio fazer observações profundas, disse:

- Nosso tempo acabou.

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

de frente pro crime - investigador azarado - parte I

Terceira vez essa semana, pensou entediado enquanto se desviava dos grupos de repórteres na porta. Aproximou-se do capitão para se interar do caso. Arrependeu-se no momento em que descobriu que era o Prestes, deu meia volta, calçou as luvas e se preparou para enfrentar outra cena.

A sala estava turva, um fraco feixe de luz cortava o ambiente, desordem não seria o suficiente para descrever o estado dos móveis, dos cacos espalhados no chão, do rasgão no cortinado, do jantar desperdiçado. Fechou os olhos para memorizar a primeira foto, lembrando-se de que não era necessário gravar o tipo de comida que não fora aproveitado.

Avançou, a destruição também caminhou sala à dentro, agora, com a luz de um abajur caído, a cena ganhava mais vida. Briga, não restava mais nenhuma dúvida: o filete fino de sangue denunciava uma luta destrutiva, mas silenciosa. Não iria descascar a parede para produzir uma nova prova, não hoje. Continuou andando, com sua máquina fotográfica mental ligada.

Passos pesados interromperam sua sessão de fotos, o capitão entrava na sala, berrando ordens para toda sua equipe. Eles tinham meia hora para encontrar o que existisse para ser encontrado. Sua paz findara, a partir daquele ponto, o apartamento seria destroçado e tudo e qualquer parte que pudesse ser utilizada seria destruída. Afastou-se do bando e entrou na outra sala.

Que raios de lugar é esse? Pensou enquanto a poeira invadia seus olhos e o cheiro de mofo castigava seu olfato. Procurou a máscara nos bolsos do jaleco parado próximo a porta querendo deixar aquele local o mais rápido possível. Quando a encontrou, seu corpo já tinha se acostumado com o ambiente e ele preferiu voltar com a máscara para o bolso. Tentou assimilar as dimensões do quarto, parecia uma caixa quadrada, dando a ilusão de que quem desse um passo para dentro, não conseguira mais voltar. Possuía várias colunas espalhadas, provavelmente, sustento para algo no piso superior- Pensou enquanto reunia coragem para avançar em sua exploração.

Com três passadas atingiu o centro. Era bem menor do que ele previra. Ali, já não escutava a baderna dos homens do Prestes, mas começava a escutar o batimento acelerado de seu próprio coração. Preferiria escutar o barulho dos guardas. Deu mais dois passos e, por sorte ou azar, atingiu uma das colunas. Xingou baixinho e deu a volta, pronto. Lá estava o motivo de estarem ali.

E agora? - Ele sempre relutava. Volto para a sala ou examino? O cheiro voltou a lhe atacar, agora era mais denso, o quarto ficou mais escuro, embora ele percebesse que alguém se aproximava, ajeitou a máscara no rosto. Os passos tornaram-se mais audíveis, e num segundo, ele ouviu a porta ser batida com toda força. Fato: estava preso. O corpo ficou pesado, mas antes de cair ele ainda sentiu uma mão no seu pescoço.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

La Donna



Enxugou o rosto respingado da primeira água que sai da torneira de manhã, aquela primeira água, que passou a noite gelada entre os canos, que machuca a pele, que gela o corpo. Completou seu ritual de embelezamento, vestiu o vestido que ganhou dele no último aniversário, aquele aniversário em que tudo parecia tão perfeito, aquele em que fizeram mil planos para o futuro, aquele quando a vida era leve. Procurou o colar que ganhara no segundo encontro, quando nada tendia a compromissos, quando a situação não pedia decisões, quando seus olhos ainda brilhavam mais que o colar. Abotoou a delicada fechadura no pescoço, enquanto o músico, ao fundo, lhe dizia que amanhã haveria de ser um novo dia.

Para sair, teria que arrumar uma bolsa menor, não poderia levar sua bolsa de professora do ensino médio. Despejou o conteúdo da bolsa, caneta, revista de palavra cruzada, batom, outra caneta, cartão de crédito que deveria estar na carteira, carteira, corretivo, base, outro batom, livro do Graciliano, bolsinha de maquiagem, moedas, porta moeda, lencinhos de papel, um tablete de chocolate, um brinco que perdeu o par, espelho, notas para a próxima aula, drops de bala, cartão do banco e papel do estacionamento. O que restou da cama abrigava a outra bolsa. Separou os artigos de sua primeira necessidade enquanto lembrava que ele dispensaria 80% daquele conteúdo, e com a bolsa nas mãos, pegou os óculos, aquele modelo grande, que oculta uma parte estratégica da face.

Deu sinal para o táxi, deixou a bolsa no banco, e se preparou para o papo de táxi, aqueles em que o motorista expõe sua ideias e o passageiro ouve atentamente, tentando não alongar muito o assunto. Dessa vez o motorista parecia absorto em seus próprios pensamentos. Ela mal falara o seu destino e ele já dissera: 'Conheço bem, senhora'.

Era então hora de se concentrar na sua tarefa, buscar falhas daquela história, falhas que ela sempre ignorara: aquela vez que ele prometera deixar os filhos começá-la, mesmo não sendo apresentada da maneira correta, aquela outra vez que não pode assistir a formatura do filho dele, aquele mesmo filho que ela sonhava em criar nas montanhas de uma cidadezinha do interior. Era hora de destruir as esperanças, aquela esperança de que ele deixaria a tal esposa, a esperança de que iriam ficar juntos para sempre, a esperança de que seria perfeito como nos livros. Ela se esquecera de que a vida não é um livro com finais felizes. Quando uma lágrima gélida deslizou pelo seu rosto, o motorista avisou: "Chegamos". Ela pagou a corrida, montou seu melhor sorriso e desceu.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Noções de crença



- Pai, você acredita? - Perguntou a menininha sentada no canto da sala.

-Acredito em que? - Indagou o pai sem desviar os olhos da tela do computador.

_ Nisso que disse o moço.

- Mas o que é que o moço disse, princesa?

Com um tom de irritação, a pequena suspirou, e disse:

- Nos intraterrestres, pai. Você num viu o moço falando?

O pai, ainda absorto no computador não ouviu a pergunta e não parecia se importar em responder, então, ela levantou, arrumou o vestido, e foi para o quarto da mãe:

- Mãe, você acredita no que o moço disse? - perguntou enquanto escalava a imensa distância que separava a cama do chão.

A mãe deixou o livro de lado e abriu os braços para receber a pequena:

- E o que foi que o moço disse?

Ela sabia que a mãe teria tempo para um relato completo, e então começou a contar a reportagem assistida minutos antes, usando todos os recursos aprendidos na escolinha na semana anterior, quando a Tia ensinara aos pequenos como contar uma história. E concluiu com a mesma pergunta que fez ao entrar no quarto:

- Você acredita mãe?


A mãe já desconfiava que a filha andava assistindo tv demais. Culpa do pai que sempre a coloca para brincar na frente da tv, pensou enquanto tentava bolar uma resposta. Se ele tivesse jogando com ela, ou lendo uma história, ela não teria que enfrentar um debate sobre "intraterrestres" antes do sono. E se a menina tivesse pesadelos? Onde aquele louco estava com a cabeça?

A menina assistiu a todas as mudanças de expressão facial da mãe, arrastou se para o chão e foi procurar alguém que lhe pudesse responder. O irmão mais velho dormia no próximo quarto, e a irmã não a deixaria entrar se ela batesse na porta. Então, sem dar um pio, entrou no quarto e sentou na porta do banheiro. Quando ela sair, vai me ver e me contar tudo sobre essa história, pensou a pequena.

A televisão ligada lhe chamou atenção: um monte de gente dançava e cantava no meio da rua. A garotinha se levantou e começou a dançar também. Girava e sentindo o vento no rosto, sorria. A mãe, maravilhada assistia ao baile da pequena, aliviada, talvez tivesse ela esquecido dos ets.

A música parou, a menina sentou, com o rosto rubro, sorriu para mãe e disse:

- Você me conta uma história antes de dormir.

- Claro, anjo. Vamos pra cama?

Já acomodada na cama, entre as cobertas e a mãe, a pequena olha para mãe com olhos suplicantes e diz:

- Mãe, me conta uma história de intraterrestres.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Reaprendendo

Pisou na terra molhada, ainda não gostava do contato dos pés com a terra, sentia que os poros de sua pele eram invadidos por pequenos grãos e ele não conseguia respirar direito. Não sabia a origem do pequeno trauma, e não discutia isso com ninguém. Mas estava feliz por estar em casa.

Chegou ontem, recebeu um sorriso do pai e um abraço sufocante da mãe. Sentiu-se bem vindo, como não conseguia se sentir nos outros lugares que passava. Hoje, começou a sua nova vida. Vida de interior, daquelas onde se levanta cedo para fazer um zilhão de tarefas. Daquelas em que se consegue deitar tranquilo no fim do dia.

Deixou para trás uma carreira brilhante, um carro importado e uma top model. Não compreendia todas aquelas colocações, não gostava da forma como as pessoas eram tratadas, não sabia como se manter sempre com um sorriso no rosto e com ar de vitorioso. Gostava de se sentir humano, não de ser aquela máquina perfeita, como seus antigos colegas. Agora se preparava para tirar leite, coordenar boiadas, realizar vistorias em plantações, viver de uma forma mais honesta e menos criativa. Queria paz.

Entrou na cozinha, procurou o bule, e encheu a xícara esmaltada, o gosto ainda era o mesmo, gosto de infância perdida no tempo, gosto de conversa fiada na mesa do almoço, gosto de brincadeiras no fim de tarde. A mãe lhe passou o pão, daqueles assados em forno a lenha, fermentado a amor e amassado com vida, com sabor de perfeição. Satisfeito com a refeição, despediu-se da mãe e foi ganhar o dia.

Não queria se tomar posse da felicidade que lhe invadia, não queria confiar plenamente nela. Preferiu torna-se um cético, que se levanta vagarosamente, após uma batalha perdida. O pai lhe mostrava, como antigamente, os limites da propriedade, as modernidades, os velhos locais de trabalho, enquanto ele repuxava histórias daqueles cenários, para dividir com o pai. Mas a lembrança o traía, não lhe mostrava nada que pudesse dividir e então, ouvia calado enquanto caminhava.

Que estariam dizendo as pessoas do local? Será que sabiam por que tinha voltado? Será que estavam curiosos? Essas e outras perguntas invadiam sua mente, hora ou outra, quando parava para enxugar o suor, ou para beber água, e se dissolviam quando ele continuava seu trabalho.

E assim o dia foi passando, o mês foi passando, o ano foi passando. Quando se deu conta, já não se incomodava tento em pisar na terra, já possuía mais jeans do que ternos, já conseguia contemplar o por do sol e já se sentia tomado pela tal felicidade.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Dilema

Enxugou seu rastro pela sala, era a quarta vez que fazia isso essa semana, quem mandou ir morar sozinho. Agora, sua antiga mania de não conferir se a toalha estava no banheiro tinha conseqüências. Terminou de pentear os cabelo, enquanto pensava se iria, mais uma vez, entrar para verificar as mensagens, já estava cansado de voltar para o computador como se sua vida dependesse dele. Decidiu que seria mais saudável procurar outra ocupação. Rodou a casa, e acabou voltando para a sala, logo a sala, pouco mobiliada, com a mesinha de centro que fora de sua avó, a televisão diluída ao longo de um ano e ausência de um sofá, que pouco oferecia de distração.

Ligou a tv, mas não se preocupou em trocar de canal, se quer percebeu em que canal estava. Seu pensamento ainda era ocupado pela entrevista do dia anterior. Não sabia como tinha deixado chegar à aquele ponto, estava sim, preocupado e confuso, mas jamais imaginou que não conseguira responder a nenhuma das perguntas como planejava. Tentou justificar pensando que poderia ter sido tomado por um desses surtos de memória onde não se lembra nem do próprio nome, mas, lá no fundo, sua mente e até mesmo seu coração, sabiam que não era verdade. Foi ele mesmo, em total gozo de suas faculdades mentais, que montara uma a uma aquelas respostas imprecisas. Não havia como escapar dessa verdade.

Passou as mãos nos cabelos, percorreu todo o corte feito as pressas, o frio de seus dedos aumentavam a angustia que sentia. Colocou a mão no bolso, buscando que fosse transferido um pouco do calor do resto do seu corpo para suas mãos. Só que seu corpo também estava frio. E o pior, vestir o moletom não o aqueceria. Estava cansado, não queria continuar tentando compreender suas ações, não queria pensar nos que aconteceria nos próximos dias. Um chiado quebrou seus pensamentos, o celular, pensou, onde será que deixei. Fez uma busca de seus últimos movimentos e lembrou que estava dentro da mochila, em cima da cama com seus lençóis desordenados. Preferiu ignorar, provavelmente seria a mãe, querendo lhe contar a mais recente descoberta do mundo artístico. Fez uma anotação mental: desligar uns canais da casa de mãe.

Colocou as mãos na mesinha, tampa de vidro, base de madeira, será que essa combinação ainda era comercializada hoje. Projetou toda o resto de força que possuía para suas mãos, o vidro partiu,um filete vermelho manchou-lhe o braço. Agora tinha uma ocupação, limpar o pequeno ferimento e arrumara a bagunça da sala. Mas não sentia vontade de fazer nenhuma das duas coisas. Só pensava em ligar novamente o computador e descobri se tinha ou não uma resposta da entrevista, ainda não tinha preparo para receber outro não. Fechar mais um mês agoniado não era uma opção válida.

Agora o ferimento manchado já não doía tanto, não lhe restava uma dor justificável, decidiu que era hora de tomar uma decisão, não poderia passar o resto da vida sentado na sala, sentido os ossos congelarem e a alma sendo devorada por uma angústia suprema. Levantou-se, jogou água no braço, tingindo a pia de rosa. Recolheu os cacos da sala e os seus próprios pedaços perdidos ao longo da tarde, jogou fora o jornal do dia anterior, vestiu um agasalho e se sentou na frente do computador.


O sol que entrava pela fresta aberta da janela, não era suficiente para dar novos ares ao ambiente. A luz emitida pela tela não iluminava, mais uma vez a resposta não viera. Abaixou a cabeça protegendo-a com as mãos e mesmo não sendo crente, acabou por proferir a primeira prece de sua vida. Buscava consolo, e por mais que não soubesse se teria ou não resultado. Saiu de casa com esperanças. Tanta esperança que não percebeu como o mundo se movimentava.

Não se lembrava de nada, só se viu deitado no asfalto, com uma nova mancha vermelha e uma multidão a sua volta. Tudo girava, e rápido demais para se tentar compreender. Fechou os olhos e desejou estar em um lugar calmo, onde não existisse tanta gente e houvesse uma música calma. Mal terminou de pensar e estava em uma sala vazia e uma melodia tocava ao longe, Um trilhão de dúvidas passava pela sua cabeça, e ainda sentia que tudo girava rápido demais, fechou novamente os olhos e desejou não acordar jamais.